Atendimento (81) 3268-2211
×

Publicações

A arquitetura de símbolos

Lourival Holanda — APL

Quando muito bom, um poeta extrapola a noção de escola, a periodicidade, a classificação a que, por comodidade didática, ficaria restrito. É o caso da poesia de José Mário Rodrigues: parece que os poemas foram escritos num mesmo tempo – ou fora dele, dada sua unidade rítmica. Ele, cedo, se distancia da retórica convencional; todo bom poeta é mesmo um heterodoxo por natureza: destoa quando cria. Suas imagens surpreendem e dão a alegria própria à boa poesia; sua liberdade de ritmo faz seu verso mais acrobático e vivo. É ainda um ritmo à la Lorca que marca o poema Deserto: Por isso leva-me para o deserto/ nem que seja para um sombrio/ e terrível deserto.

Não há como ignorar nele o passador de mensagens explícitas – o jornalista – quando a poesia agora o encarrega de outro tipo de mensagem, com outro ritmo, sob a égide do mesmo deus da comunicação, Hermes; mas, um Hermes de dicção contemporânea.

Guarda vislumbres dos poetas que frequentou mais amiúde: um Drummond, um Joaquim Cardozo – que foi, menos seu mentor e mais seu amigo; além do abalo sísmico de Clarice Lispector – que ele recebeu cá em Recife e cuja prosa casa bem com o melhor da poesia.

Assim, sua linguagem floresce, a um só tempo, pródiga e poderosa por força de uma feliz economia de meios: a poesia de José Mário é menos prolixidade e mais concentração de signos.

Há nela o traço marcante de uma ausência funda, dessas que nenhuma palavra supre: um sol secreto que tinge de ouro fosco o brilho de um morto: Meu pai tomou o trem/ até a estação do esquecimento. / Ao fim da linha/ três balas silenciaram a noite/ e fizeram do meu destino/ um lamento. (Último verão). Há aqui um dilaceramento todo interno; nele lateja a paixão filial com agudeza de um espinho de mandacaru na carne viva; uma angústia contida faz do poema (bem-sucedido) memória perene. Memória antiga de sonho e sangue. Sou o que necessita da palavra/ sobretudo a que entre nuvens e dúvidas/emudece. (Primeiro motivo). Um poema também é feito de muitos silêncios. Ainda que, algumas vezes, seja um silêncio de nuvens obscuras.

Difícil desafio ao poeta moderno: evitar a armadilha do redizer, em temáticas como a morte ou o amor – temas graves; e fragilíssimos, em poesia. José Mário faz isso de modo magistral usando excelente economia de recursos verbais – que ele conjuga com ritmos e silêncios, dando largo lugar ao imaginário do leitor atento: Quanto custa o amor/ quando o anjo da esquina/ desapareceu/ por excesso de intolerável beleza. (Sem resposta). Em outro poeta moderno, o colombiano Álvaro Mutis, o amor é, não o sentimento comum, mas um pressentimento: A la vuelta de la esquina/ un ángel invisível espera. E o amor é uma ascese, uma vigilância, quando o corpo acorda um espírito em pânico; no poema de José Mário: o corpo dá sinal/ de forma obliqua. Assim, a poesia dele dialoga, tranquilamente, com autores como João Cabral, Giuseppe Ungaretti, Álvaro Mutis — ou Joaquim Cardozo, de quem próximo. É uma voz pernambucana aberta ao mundo.

Mas, é sobremodo, um poeta da urbe moderna; o ritmo de seus versos já parece o caminhar pelas ruas; e tem sempre a angustiante sensação da brevidade de tudo: as lembranças rondam o quarto/ como se fossem presenças mudas/ mas eternas; então o poema toma como empenho transfigurar no verso a inesgotável riqueza do cotidiano. O passo de passeio parece desangustiar o peso no peito: Pela manhã/ abro a janela para o nada/ mas ao olhar o retrato de Eduardo/ vejo andante/ um verão/ descongelando a fonte/ e parto para a rua imensa/ onde passeia minha desolação. (Quinto motivo). E, no entanto, como com Drummond ou Lorca, alguma coisa fica, como o brilho da brevidade: Deixo um pouco de mim/em tua presença/ e que vai se diluir/ em fragilidade e volúpia (Herança). O poeta aposta na imanência, na urgência, na iminência de tudo: Eu quero apenas um instante/desses que ninguém percebe/ e passeia translúcido pela cidade (Decisão2).

Seu olhar sobre o mundo também aponta as mazelas, as injustiças, as indecências sociais que levam à indignação: Não te desesperes/ liberdade, justiça, igualdade/ são aspirações – mas o poeta sabe agora esses grandes gestos, necessários, urgentes, veem em suplência de uma carência mais funda: se ao meio/ de todo o fracasso de viver conseguires/ amar/ terás saciado / o teu desejo de eternidade. (Conselho). Privilégio e escândalo da poesia: entender que o que move a militância, de qualquer ordem é, em última instância, o amor. O amor a uma causa, a uma coisa, a uma cara querida, tudo é um. Toda palavra escrita/ no sangue que se fez poesia. O poeta levanta a palavra como um estandarte – que evoca, convoca, provoca. E o peso do imediato prevalece sobre, mesmo sobre a memória: De uma coisa tenho certeza:/meu tempo é exato/ e a memória imprecisa. (Certeza).      

Quando o romantismo tendia a se refugiar dentro de si, a poesia de José Mário ganha o mundo exterior, reflete a consciência de estar no mundo; é sobre o real sua reflexão poética. Mas é sobretudo o modo – verdadeira performance formal no que atesta a maestria de José Mário Rodrigues: O meu quarto é um abismo/ onde se espalham os sentidos. (Deserto).

Se um poeta vale sobretudo por sua atitude diante da linguagem, a de ZM nada tem da ordem retorcida da retórica poética anterior; nem tampouco do desafio cerebral e angustioso: aqui importa cantar a vida; exorcizar, pela beleza, sua brevidade. Sua arquitetura de símbolos cifra e decifra o mistério do mundo imediato, num modo onde sentir é cantar.

Seu tempo é feito de intensidade, de instantes poéticos fulgurantes. Poeta de estrutura verbal leve, pode parecer apenas espontâneo – coisa de quem incorpora de tal modo uma técnica precisa, que arma sua arquitetura de símbolos com tal maestria, que dá a seu verso esse frescor, essa leveza tão peculiar. E tem consciência disso: Todo dia nos despedimos / um pouco. / Mas avançamos na lucidez das palavras (Bilhete para Deborah Brennand). Entre nós poucos poetas ousaram tanto; mas que é, seguramente, o surpreende em versos de um Cabral, ou de um Joaquim Cardozo. É a essa atenção dada às coisas que se chamou, antes, inspiração.

Ao poeta o deus dá os olhos – ele então educa o olhar; assim, inda que a matéria seja o trivial, seu verso não cede à facilidade.

Não é, a poética de José Mário, de queixa sentimental, essa fatalidade poética. Traz, marcado em fogo, a vida toda, o estigma de amor havido. Não tenho desejado mais que tua presença/ e estar ao vento. (Oitavo motivo). O poeta sabe que o amor é uma experiência, nunca um discurso: Nada sabemos do amor/ e nos julgamos juízes e sábios/ e nos arvoramos/ reveladores de mistérios. (Desconhecimento).

Nele, quase a metáfora retrocede à concretude metonímica – como no poema a Ana Pamplona, a artesã: do umbuzeiro extrai o santo; o milagre já é o das mãos transmutadoras; não há que esperar outro; inesperado é o do poema desentranhado das palavras, aqui rendendo homenagem duplicada em beleza.

Há a importância do rio, em João Cabral; o trem, em Joaquim Cardozo; em ZM, o desejo silenciado: O medo de transitar pelo teu corpo/ tornou sacra a tua imagem/ e me fez só. No poema o desejo se fez verbo. O mais leve intento de ternura é segurado com destreza: um silêncio envolto em pólvora/ e a dor se torceu em versos. É sempre a dura dramaturgia do desejo — o vácuo entre o ser e a espera – de que dão indícios luminosos os versos: (…) essa noite de ternura retardada/ passo a passo feito sombra/ escorrendo uma malícia nos dedos. (Vigésimo motivo). A espessura do desejo parece ser sua marca – que o poeta conjuga, muito modernamente, com a aceitação da fragilidade, da brevidade das coisas: Não procuro mais encontrar eternidade nas coisas. Como se acolhesse, com alegria até, feito Cecília Meireles, as coisas que passam. E, no entanto, há o contraponto: (…). Quem oculta essa incontida necessidade de amar? O poeta, artesão das palavras, trata com dobrado cuidado a temática do desejo; sabe, com Baudelaire, que a sensibilidade de cada um é seu gênio; que cada um constrói e é construído pelo desejo, nossa mais funda identidade: Cada um sabe de sua paisagem/ do eco de seus desejos (…). Assim, sua poesia é, simultaneamente, reflexo e reflexão, de coisas abissais: Viver é estar preso a um corpo/ que quer desvendar sua a alma/ — e encontrar um sentido. (A qualquer momento). A ambiguidade do verso beneficia a poesia: cabe à alma cobrar do corpo seu sentido? Num outro passo ele vai reforçar: No outro lado da rua/ um anjo se expõe ao desejo. (Desejo). Temática desgastada, a que o poeta reaviva com um interrogante que inquieta e surpreende: Deste-me o teu corpo/ e não desejo a tua alma. (Carne viva). Manuel Bandeira não estranharia esses versos.   

Sua poética é um cofre de vidro: mostra e resguarda sentidos. Lá, o leitor sempre vai encontrar essas alegrias verbais que busca todo leitor de poesia. Basta ver a marcada sensualidade das entrelinhas, na alusão magistralmente domada; por aqui passou a paixão, o leitor perspicaz percebe; mas sua força não se dissipa no explícito; antes, vem (…) de um silêncio transtornado/ uma lembrança abrindo chagas/ num corpo inerte. (Verso).

Desde o começo sua poesia conserva, intacto, o frescor, o movimento, o entusiasmo que a faz permanentemente atual. Prudência por prudência/ eu quero a loucura/ e minha espada cortando/ uma floresta invisível. (Décimo terceiro motivo).

Não pretende ser denso e dramático – antes, com certa dose de humor, é o poeta que canta a graça da sensualidade das coisas simples; o enigma do mundo não apaga a alegria. Quero /arrancar do fundo da terra/ uma alegria/ que estremeça como um parto/ o meu futuro. (Para um instante alegre). Mas, às vezes, a poeta depura seu verso de notável concentração ao modo de Giusepe Ungaretti (Matina: M´illumino d´immenso), como quando finda Espelho: Vejo-me terra/ sinto-me deserto. Isso bastaria para fazer dele um poeta raro.

Cada poeta cria seu mito; o de José Mário é o da brevidade. Uma seleção singular de sua arquitetura de símbolos convocando atenção à fragilidade e à precariedade de tudo; e, por isso mesmo, o poemário aponta a urgência em sorver cada momento como um canto.

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support