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A cerimônia do adeus – Cícero Belmar

Aquele era o lugar preferido do apartamento, a biblioteca. Mais de três mil livros dispostos de forma organizada, os de literatura selecionados por autores; os de pesquisa, pelos assuntos. Foi tirando um a um, das prateleiras. Era a última vez que eles saíam daquele espaço ocupado havia tanto tempo, quantos anos? Décadas, talvez. Nem ela mesma, a escritora Ana Maria César, se lembrava. Quando se mudou para outro apartamento, precisou se desfazer de muitos livros. Ao retirá-los das estantes, deparou com impasses, nostalgias, análises e constatações: todo fim traz consigo um recomeço.

Desfazer-se dos livros fora um desmonte do passado. Encerrava-se um ciclo, ela precisava deixar para trás várias coisas. Não teve dificuldade de se livrar de móveis, eletrodomésticos, peças de decoração, sapatos. Eram apenas objetos. Mas, os livros, não. Eles estavam carregados de vida, conduziam a linguagem oculta de sentimentos. Foi como um parto.

Ana Maria César tomou a decisão de se mudar do apartamento na fase aguda da pandemia de covid-19. Era espaço demais para viver sozinha. Estava determinada a ocupar um imóvel menor, sem abrir mão do conforto. Para que serve tanto espaço se as fantasias de uma escritora podem recriar o mundo? Precisava de menos. O outro requisito importante era morar mais próximo de sua filha. Por coincidência, conseguiu um imóvel no mesmo prédio que o dela. O único problema, que quase a desanimou, é que, para onde estava indo, só havia espaço para colocar dez por cento da quantidade de livros que possuía.

A oportunidade era aquela. Pegar ou largar a oferta do apartamento. Abrir mão daqueles volumes, que foram seus companheiros de anseios e alegrias, não foi fácil. E quando começou a retirá-los da biblioteca, descobriu sentimentos inesperados: percorrer os livros era o mesmo que invadir o seu passado sem aviso prévio.

A cada um que retirava das estantes, tinha a sensação de estar olhando por um retrovisor. Aqueles livros foram suas escolhas, revelavam muito sobre ela mesma. Sem dúvida, foram um investimento intelectual, afetivo e emocional que se acumulava nas prateleiras, mas que fizera dela aquilo que era hoje. Abrir mão daquela biblioteca era como deixar para trás sua personagem de formação. Os sonhos mais íntimos. Os legados pessoais. Por pouco não desistiu do negócio. Mas, não tinha muito tempo para se reconduzir no presente que lhe exigia praticidade.

Existe um abismo entre a vida cotidiana e as fantasias: separando os livros, chegou à hora rudimentar de precisar decidir qual destino daria a eles. Não era uma coisa matemática ou fria ou razoável. Constatou que alguns estavam tão mofados e manchados, com páginas faltando, que não serviam sequer para doação. O que fazer com aqueles que estavam tão danificados?

Num momento patético, com exemplares nas mãos, Ana Maria César chegou a uma conclusão igualmente patética: livros usados, doados, rejuvenescem. Dão felicidade a outras pessoas. Mas, havia uns em péssimas condições. Descobriu dentro de si o sentimento dos carrascos: “Eu não quis nem pensar em jogar no lixo os que não tinham mais condição de uso. Como assim? Escritora, membro da Academia Pernambucana de Letras, jogando livros no lixo?”.

Passou lencinhos de pano nos que estavam arruinados, dolorosa cerimônia. Foram embrulhados com carinho, em papéis bonitos, amarrados com fitas. Desfazer-se era deixar pelo caminho o que lhe constituiu. Mas, o inevitável se impunha. “Me recusei a pensar que os levaria ao lixo. Eu teria que fazer o descarte. Simplesmente, não tinha força para decidir o destino deles. Levei os pacotes e os coloquei no balde de recicláveis”.

Encaixotou os que receberiam abrigos em algumas bibliotecas, e fez o mesmo com os que levaria consigo para o novo apartamento. Com a ausência dos que deixara pelo caminho, ora vejam, sentiu um grande vazio mas também uma inédita sensação de leveza. Pela capacidade de desapego, que acabara de descobrir. “Senti que estou fechando um ciclo. No dia em que eu for, realmente, estarei plena”, disse a si mesma.

 

* Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Pernambucana de Letras. Email: belmar2001@gmail.com; Instagram: @cicerobelmar. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

FONTE: Rubem: revista de crônica, Crônicas, 22.8.2022.

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