Atendimento (81) 3268-2211
×

Publicações

As meninas do Brasil – Cícero Belmar

Esta é a crônica da baixeza humana. Relata fatos deploráveis que se repetiram três vezes nos últimos 13 anos. E quando eu digo três vezes, refiro-me apenas aos que se tornaram conhecidos. Na semana passada, os brasileiros acompanharam o drama da menina vítima de estupro, que engravidou. Casos semelhantes foram noticiados em 2009 e 2020. Junto com a barbárie, o mesmo debate: podem ou não fazer o aborto legal?

A humanidade está em cheque. Estamos testemunhando as nossas ruínas. Mais do que nunca, precisamos de um aprofundamento espiritual, de um novo desenvolvimento da natureza humana. Pensava-se que depois da Idade Média, o homem havia reencontrado os valores da civilização, mas é um engano, em muitos casos parece que regredimos.

Nos três episódios (2022, 2020 e 2009), a mesma narrativa, envolvendo uma pré-adolescente violentada sexualmente; que engravidou depois dos seguidos estupros; e o detalhe infame, sempre meninas de famílias pobres e periféricas. Se fossem de outra classe social os hospitais resolveriam em dois tempos. Cito essas três ocorrências, mas sei que outras do gênero certamente ocorreram. Apenas não chegaram a público.

Pela condição de vulnerabilidade social dessas crianças, representantes da justiça ou religiosos fundamentalistas, nas três ocasiões, agiram de forma a tornar a situação ainda mais traumática. Como se estivessem interessadas, as pessoas interferiram na vida das meninas, arrotando teorias, em discussões e atos que levavam em conta apenas as bases do direito ou a convicção religiosa.

Os debates, nos três casos, causaram perplexidade. Em vez de defender o bem-estar das garotas, os donos da verdade investiam para prevalecer seus princípios morais sobre o tema aborto. Em nome da lei e da religião, reduziram a vida a algo extremamente prático e técnico. Acompanhando esses debates superficiais, a sensação que se tem é que a existência humana está se sufocando sob a máscara das falsas virtudes.

No caso recente, uma menina de 11 anos, de Santa Catarina, que engravidou vítima de um estupro, chegou a ser levada para um abrigo, por decisão judicial, para evitar que fizessem o aborto. O chamado aborto legal. Um mês antes a mãe a levara para um hospital. Mas a equipe médica se negou a fazer o procedimento. A menina estava com 22 semanas de gravidez e, alegaram, o aborto legal só é possível até a 20ª semana. O caso foi parar na justiça. O Código Penal permite que o aborto seja feito, independentemente da limitação de semanas, se houver violência sexual comprovada. Mas o fundamentalismo marcou pesado.

Em março de 2009, uma menina de nove anos, do interior de Pernambuco, estuprada pelo padrasto, ficou grávida de gêmeos. A Igreja Católica tentou impedir o aborto e um arcebispo, que hoje ninguém se lembra sequer do nome dele, excomungou o médico que fez o aborto. Em agosto de 2020, outra garota de 10 anos, que desde os seis era estuprada pelo tio, no interior do Espírito Santo, também engravidou. Os médicos daquele estado não quiseram fazer o aborto legal e a menina foi conduzida para o Recife. Enquanto o procedimento era feito, religiosos radicais gritavam “assassina” na porta da clínica.

Nos três casos, o aborto legal se consumou. Ufa! Mas, os debates constrangedores só comprovaram que os direitos individuais foram duplamente violados. E isso exige que toda a sociedade fique atenta. Quem pagará pelos traumas das meninas, que além do estupro e da gravidez, ainda tiveram que enfrentar as barreiras dessa hipocrisia?

* Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Pernambucana de Letras.

FONTE: Rubem: revista de crônica, Crônicas, 27.06.2022.

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support