É com surpresa e satisfação que o ano finda testemunhando uma renovação considerável da literatura, especialmente nos quadrantes nordestinos; sobretudo quando as Cassandras pessimistas continuavam a ver, na crise, uma diminuição da produção; já a evidência desdiz de seus prognósticos.
Ao contrário: a crise provoca a criação – que teima e transfigura dificuldade em solução. Variação e continuidade têm marcado o compasso da cultura literária entre nós.
Há pouco, e numa mesma tarde, celebrávamos produção nova da já consagrada Luzilá Gonçalves Ferreira e, ao mesmo tempo, Vanessa Passos, cearense, jovem vencedora do Prêmio Kindle de 2021: duas gerações atestando a presença da voz feminina no modo de reivindicar a reinvenção do mundo. Fábio Lucas, esse animador cultural atento à produção mais recente, havia proposto esse encontro.
Cícero Belmar, tratando da intensa dramaturgia do cotidiano, apresentava mais um lance de sua produção recente: O livro das personagens esquecidas. E agora, marcando merecida presença na Flip de 2022, Nivaldo Tenório dava provas de sua madurez criativa. Cristiano Aguiar abria vertente nova na prosa recente, com Gótico nordestino; Cristiano não surpreendia tanto quanto cumpria expectação dos que acompanham sua inquieta veia criativa.
Everardo Norões acaba de lançar um desnorteante conjunto de contos: Garrafas que sonham macacos; a maestria de sua prosa vem de mão madurada desde os primeiros livros de poemas.
Pouco basta para ver a produção literária nos quadrantes de cá: o Nordeste, esse país de renovação, sabe se erguer, política e literariamente. A necessidade de narração é uma constante na cultura; seja nas artes plásticas, na música ou no cinema: a arte cria um espelho onde a sociedade se vê, se denega e se projeta outra. Aqui a tradição é uma referência – como um monumento ao lado da estrada – não um obstáculo.
A página em branco, com seu peso de memória implícita, deixa o autor entre o risco da repetição – e a aventura do autenticamente novo.
A proliferação de textos nas redes sociais não implica em maior produção literária; há, de fato, uma democratização considerável dos meios. No entanto, literatura continua sendo uma questão de forma. Todos têm sentimento
e se expressam; legítimo, isso. Literatura vai fazer tais textos submergirem no escoadouro vertiginoso das redes; e outros, ficam.
Annie Ernaux, Nobel recente, fez literatura a partir de suas experiências, dolorosas e pessoais; mas, dizia, é uma questão
de forma. Ou seja: num primeiro momento não são ideias, reivindicações, sociologia. Saramago vai na mesma direção, numa entrevista: assim como o corpo é 75% água, a literatura é 75% linguagem.
É verdade que a mídia e o mercado pedem coisas digeríveis; ou não: no modo fast food.
Há uma instância potencial, a literatura, e nela as pessoas escrevem, espontaneamente; isso tem seu charme – como quem canta num karaokê: a orquestração ali é apenas uma base, secundária.
[Karaokê já é orquestra vazia]. A literatura é sim, essa entidade vazia, puro potencial – como o cérebro, o sexo, a linguagem: dependem do uso específico que, na circunstância, se fizer deles.
Assim finda 2022: o que vemos da produção literária desde a estreita
ponte do presente, o que circula entre nós e que ainda não podemos julgar com segurança – é um saldo positivo.
*LOURIVAL HOLANDA é presidente da Academia Pernambucana de Letras
Artigo publicado no Diario de Pernambuco de 13/12/22.