Lourival Holanda — APL
Quando muito bom, um poeta extrapola a noção de escola, a periodicidade, a classificação a que, por comodidade didática, ficaria restrito. É o caso da poesia de José Mário Rodrigues: parece que os poemas foram escritos num mesmo tempo – ou fora dele, dada sua unidade rítmica. Ele, cedo, se distancia da retórica convencional; todo bom poeta é mesmo um heterodoxo por natureza: destoa quando cria. Suas imagens surpreendem e dão a alegria própria à boa poesia; sua liberdade de ritmo faz seu verso mais acrobático e vivo. É ainda um ritmo à la Lorca que marca o poema Deserto: Por isso leva-me para o deserto/ nem que seja para um sombrio/ e terrível deserto.
Não há como ignorar nele o passador de mensagens explícitas – o jornalista – quando a poesia agora o encarrega de outro tipo de mensagem, com outro ritmo, sob a égide do mesmo deus da comunicação, Hermes; mas, um Hermes de dicção contemporânea.
Guarda vislumbres dos poetas que frequentou mais amiúde: um Drummond, um Joaquim Cardozo – que foi, menos seu mentor e mais seu amigo; além do abalo sísmico de Clarice Lispector – que ele recebeu cá em Recife e cuja prosa casa bem com o melhor da poesia.
Assim, sua linguagem floresce, a um só tempo, pródiga e poderosa por força de uma feliz economia de meios: a poesia de José Mário é menos prolixidade e mais concentração de signos.
Há nela o traço marcante de uma ausência funda, dessas que nenhuma palavra supre: um sol secreto que tinge de ouro fosco o brilho de um morto: Meu pai tomou o trem/ até a estação do esquecimento. / Ao fim da linha/ três balas silenciaram a noite/ e fizeram do meu destino/ um lamento. (Último verão). Há aqui um dilaceramento todo interno; nele lateja a paixão filial com agudeza de um espinho de mandacaru na carne viva; uma angústia contida faz do poema (bem-sucedido) memória perene. Memória antiga de sonho e sangue. Sou o que necessita da palavra/ sobretudo a que entre nuvens e dúvidas/emudece. (Primeiro motivo). Um poema também é feito de muitos silêncios. Ainda que, algumas vezes, seja um silêncio de nuvens obscuras.
Difícil desafio ao poeta moderno: evitar a armadilha do redizer, em temáticas como a morte ou o amor – temas graves; e fragilíssimos, em poesia. José Mário faz isso de modo magistral usando excelente economia de recursos verbais – que ele conjuga com ritmos e silêncios, dando largo lugar ao imaginário do leitor atento: Quanto custa o amor/ quando o anjo da esquina/ desapareceu/ por excesso de intolerável beleza. (Sem resposta). Em outro poeta moderno, o colombiano Álvaro Mutis, o amor é, não o sentimento comum, mas um pressentimento: A la vuelta de la esquina/ un ángel invisível espera. E o amor é uma ascese, uma vigilância, quando o corpo acorda um espírito em pânico; no poema de José Mário: o corpo dá sinal/ de forma obliqua. Assim, a poesia dele dialoga, tranquilamente, com autores como João Cabral, Giuseppe Ungaretti, Álvaro Mutis — ou Joaquim Cardozo, de quem próximo. É uma voz pernambucana aberta ao mundo.
Mas, é sobremodo, um poeta da urbe moderna; o ritmo de seus versos já parece o caminhar pelas ruas; e tem sempre a angustiante sensação da brevidade de tudo: as lembranças rondam o quarto/ como se fossem presenças mudas/ mas eternas; então o poema toma como empenho transfigurar no verso a inesgotável riqueza do cotidiano. O passo de passeio parece desangustiar o peso no peito: Pela manhã/ abro a janela para o nada/ mas ao olhar o retrato de Eduardo/ vejo andante/ um verão/ descongelando a fonte/ e parto para a rua imensa/ onde passeia minha desolação. (Quinto motivo). E, no entanto, como com Drummond ou Lorca, alguma coisa fica, como o brilho da brevidade: Deixo um pouco de mim/em tua presença/ e que vai se diluir/ em fragilidade e volúpia (Herança). O poeta aposta na imanência, na urgência, na iminência de tudo: Eu quero apenas um instante/desses que ninguém percebe/ e passeia translúcido pela cidade (Decisão2).
Seu olhar sobre o mundo também aponta as mazelas, as injustiças, as indecências sociais que levam à indignação: Não te desesperes/ liberdade, justiça, igualdade/ são aspirações – mas o poeta sabe agora esses grandes gestos, necessários, urgentes, veem em suplência de uma carência mais funda: se ao meio/ de todo o fracasso de viver conseguires/ amar/ terás saciado / o teu desejo de eternidade. (Conselho). Privilégio e escândalo da poesia: entender que o que move a militância, de qualquer ordem é, em última instância, o amor. O amor a uma causa, a uma coisa, a uma cara querida, tudo é um. Toda palavra escrita/ no sangue que se fez poesia. O poeta levanta a palavra como um estandarte – que evoca, convoca, provoca. E o peso do imediato prevalece sobre, mesmo sobre a memória: De uma coisa tenho certeza:/meu tempo é exato/ e a memória imprecisa. (Certeza).
Quando o romantismo tendia a se refugiar dentro de si, a poesia de José Mário ganha o mundo exterior, reflete a consciência de estar no mundo; é sobre o real sua reflexão poética. Mas é sobretudo o modo – verdadeira performance formal no que atesta a maestria de José Mário Rodrigues: O meu quarto é um abismo/ onde se espalham os sentidos. (Deserto).
Se um poeta vale sobretudo por sua atitude diante da linguagem, a de ZM nada tem da ordem retorcida da retórica poética anterior; nem tampouco do desafio cerebral e angustioso: aqui importa cantar a vida; exorcizar, pela beleza, sua brevidade. Sua arquitetura de símbolos cifra e decifra o mistério do mundo imediato, num modo onde sentir é cantar.
Seu tempo é feito de intensidade, de instantes poéticos fulgurantes. Poeta de estrutura verbal leve, pode parecer apenas espontâneo – coisa de quem incorpora de tal modo uma técnica precisa, que arma sua arquitetura de símbolos com tal maestria, que dá a seu verso esse frescor, essa leveza tão peculiar. E tem consciência disso: Todo dia nos despedimos / um pouco. / Mas avançamos na lucidez das palavras (Bilhete para Deborah Brennand). Entre nós poucos poetas ousaram tanto; mas que é, seguramente, o surpreende em versos de um Cabral, ou de um Joaquim Cardozo. É a essa atenção dada às coisas que se chamou, antes, inspiração.
Ao poeta o deus dá os olhos – ele então educa o olhar; assim, inda que a matéria seja o trivial, seu verso não cede à facilidade.
Não é, a poética de José Mário, de queixa sentimental, essa fatalidade poética. Traz, marcado em fogo, a vida toda, o estigma de amor havido. Não tenho desejado mais que tua presença/ e estar ao vento. (Oitavo motivo). O poeta sabe que o amor é uma experiência, nunca um discurso: Nada sabemos do amor/ e nos julgamos juízes e sábios/ e nos arvoramos/ reveladores de mistérios. (Desconhecimento).
Nele, quase a metáfora retrocede à concretude metonímica – como no poema a Ana Pamplona, a artesã: do umbuzeiro extrai o santo; o milagre já é o das mãos transmutadoras; não há que esperar outro; inesperado é o do poema desentranhado das palavras, aqui rendendo homenagem duplicada em beleza.
Há a importância do rio, em João Cabral; o trem, em Joaquim Cardozo; em ZM, o desejo silenciado: O medo de transitar pelo teu corpo/ tornou sacra a tua imagem/ e me fez só. No poema o desejo se fez verbo. O mais leve intento de ternura é segurado com destreza: um silêncio envolto em pólvora/ e a dor se torceu em versos. É sempre a dura dramaturgia do desejo — o vácuo entre o ser e a espera – de que dão indícios luminosos os versos: (…) essa noite de ternura retardada/ passo a passo feito sombra/ escorrendo uma malícia nos dedos. (Vigésimo motivo). A espessura do desejo parece ser sua marca – que o poeta conjuga, muito modernamente, com a aceitação da fragilidade, da brevidade das coisas: Não procuro mais encontrar eternidade nas coisas. Como se acolhesse, com alegria até, feito Cecília Meireles, as coisas que passam. E, no entanto, há o contraponto: (…). Quem oculta essa incontida necessidade de amar? O poeta, artesão das palavras, trata com dobrado cuidado a temática do desejo; sabe, com Baudelaire, que a sensibilidade de cada um é seu gênio; que cada um constrói e é construído pelo desejo, nossa mais funda identidade: Cada um sabe de sua paisagem/ do eco de seus desejos (…). Assim, sua poesia é, simultaneamente, reflexo e reflexão, de coisas abissais: Viver é estar preso a um corpo/ que quer desvendar sua a alma/ — e encontrar um sentido. (A qualquer momento). A ambiguidade do verso beneficia a poesia: cabe à alma cobrar do corpo seu sentido? Num outro passo ele vai reforçar: No outro lado da rua/ um anjo se expõe ao desejo. (Desejo). Temática desgastada, a que o poeta reaviva com um interrogante que inquieta e surpreende: Deste-me o teu corpo/ e não desejo a tua alma. (Carne viva). Manuel Bandeira não estranharia esses versos.
Sua poética é um cofre de vidro: mostra e resguarda sentidos. Lá, o leitor sempre vai encontrar essas alegrias verbais que busca todo leitor de poesia. Basta ver a marcada sensualidade das entrelinhas, na alusão magistralmente domada; por aqui passou a paixão, o leitor perspicaz percebe; mas sua força não se dissipa no explícito; antes, vem (…) de um silêncio transtornado/ uma lembrança abrindo chagas/ num corpo inerte. (Verso).
Desde o começo sua poesia conserva, intacto, o frescor, o movimento, o entusiasmo que a faz permanentemente atual. Prudência por prudência/ eu quero a loucura/ e minha espada cortando/ uma floresta invisível. (Décimo terceiro motivo).
Não pretende ser denso e dramático – antes, com certa dose de humor, é o poeta que canta a graça da sensualidade das coisas simples; o enigma do mundo não apaga a alegria. Quero /arrancar do fundo da terra/ uma alegria/ que estremeça como um parto/ o meu futuro. (Para um instante alegre). Mas, às vezes, a poeta depura seu verso de notável concentração ao modo de Giusepe Ungaretti (Matina: M´illumino d´immenso), como quando finda Espelho: Vejo-me terra/ sinto-me deserto. Isso bastaria para fazer dele um poeta raro.
Cada poeta cria seu mito; o de José Mário é o da brevidade. Uma seleção singular de sua arquitetura de símbolos convocando atenção à fragilidade e à precariedade de tudo; e, por isso mesmo, o poemário aponta a urgência em sorver cada momento como um canto.